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Paradoxo - 1

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A placidez dos dias radica invariavelmente nas tardes mornas. entrecortadas pelo ruído do silêncio, pelo ócio e pelo gesto lento das pessoas, cujo caminho as leva ao sofá por onde acedem ao verde que os jardins vertem do outro lado da vidraça. Verdade?

Nem sempre. O Baleal deste Verão foi estranhamente habitado por uma placidez de cujo perfil fizeram parte um frio jamais sentido na época, um vento teimoso, como de costume mas inclemente como nunca e o que é mais, o que corrói, um escandaloso desrespeito pelos sinais de trânsito os quais aliás capricham, ali, em roçar o focinho dos condutores que deles gostam de escarnecer. Pois… a cegueira de quem não vê apura outros sentidos, traz aos modos e às expressões um aveludado que faz crer que a genuinidade ainda existe embora não a inveje.

Mas, mais do que não invejar, abomino a outra, aquela dos que vêem, que é mais conforme com as leis que geram os ódios deste mundo. Ranjo uns contra os outros os meus dentes, a propósito destes cegos que vêm e teço também, sobre a mãe deles, considerações íntimas, inconfessáveis, se bem que, estou certo, vulgares neste ódio em que todos os dias, por momentos, navegamos… e, no entanto, a placidez senti-a eu, no Agosto balealense, o que sugere piedosa intervenção divina ou uma calma estável como aquela que invadiu, serena, os meus variáveis humores, nesses dias.

Foram umas boas férias, portanto…


Miguel Leal
Sargento-Mor en un pueblo manchego, lejos de mi patria

(Foto: MC)

Comments

Ainda bem que nos cruzámos só em dias sim, ou será que o prazer da minha presença fez atenuar ou mesmo esquecer essas neuras circuntanciais?

Presunção ou água benta...

Beijinhos a todos

Ana L Costa

Miguel

Sabes o que acho, ou os Deuses devem estar loucos ou estão mesmo zangados connosco, e começaram por estragar o Verão de Agosto, pois o de Setembro tem estado uma maravilha.

Zangados, e com razão, porque não respeitamos nada nem ninguém. Pior que cuspir para o ar é cuspir para o chão, que continuamos a fazer, é não respeitar o que está à nossa frente, como os sinais de trânsito do Baleal, é o falar de quem não conhecemos, só porque esse facto nos ocupa os tempos vazios que não sabemos preencher.

As minhas curtas férias em Setembro já foram, mas para o ano lá estarei.

o cavaleiro de Santiago

Claro, Ana, não duvides...da placidez de que falo , também tu fizeste parte, pelas melhores razões , isto é, contigo não se cumpriu o paradoxo que decrevi.

abraços

Miguel

Vejo que comecámos com as belezuras, apesar de esta ter umas barbaridadezitas pelo meio. Bom, bom, BOM.

Beijinhos à deriva.

Madalena

Sofá aos fins-de-tarde? No Baleal? O meu era feito de areia, com falésias por costas... e chamava-se Pedras Muitas.

Bjs,
Madalena

De férias, este ano, não posso falar. Nem no Baleal nem noutros paraísos.
Mas posso garantir-vos que tive uma tarde de revelações e descobertas como há muito tempo não me acontecia. Tudo graças ao sortilégio do Baleal.
E não a trocava, fiquem sabendo, por uma semana nas Caraíbas.

Mário, serás daltónico, por ventura?... ;D

Lady Camaroon

Não quero saber de críticas: tenho saudades do "meu" Thomas...

Mário:

a pedido de várias famíias e quando tiveres tempo ( não te estou a chamar daltónico) repensa as cores do blog.

Olá
Estive sem acesso à net, pelo que não pude fazer as alterações cromáticas tão ansiadas...
E agora só mais logo. Com mais algumas coisas, como um índice por temas.
Abraços a todos.
Mário

Sugiro um arquivo musical também, Capitán. Pode ser? Seria engraçado, com o tempo, ver as escolhas.

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